Adoráveis Mulheres

Indicado ao Oscar em 6 categorias, entre elas Melhor Filme, Adoráveis Mulheres foi baseado no livro “Mulherzinhas” (Litle Women), de Louisa May Alcott, e conta a história das mulheres da família March nos tempos da Guerra Civil Americana. A história acompanha as quatro irmãs e a mãe durante sete anos após o pai sair para a guerra. No elenco temos nomes de peso como Meryl Streep, Saoirse Ronan, Emma Watson, Timothée Chalamet e Laura Dern.

“Adoráveis mulheres” ficou na minha lista de filmes para assistir desde que soube que ele iria sair – sou uma admiradora da atriz Saoirse Ronan desde “Desejo e Reparação” e procuro assistir seus trabalhos. Já havia lido o livro há algum tempo, e pelo menos uma adaptação da história. Finalmente graças a quarentena e a busca incansável de achar o filme, eu posso trazer alguns comentários sobre essa adaptação cinematografica.

Jo March (interpretada pela Saoirse Ronan) é a protagonista da história, e uma talentosa escritora em um tempo que os escritos feito por mulheres eram olhado com desconfiança. Um dos fios condutores da história é exatamente a jornada de Jo para ser a escritora do livro “Little Women”: de uma roteirista de teatros caseiros passando por uma escritora de crônicas anônimas de um jornal, mesmo com a desconfiança do seu editor e com o baixo custo por ser uma mulher, e a uma escritora sem inspiração pronta para desistir de tudo, para finalmente ser a ousada escritora (devido as circunstâncias) de um livro direcionando para mulheres. Seu trunfo é escrever uma história comum e poder negociar com seu editor as condições de venda e impressão. Me fez parar para pensar o quão revolucionário é uma mulher criar uma história do cotidiano e ser aceita pela indústria, além das concessões que estas autoras tiveram que fazer para que as histórias fossem aceitas e pudessem ganhar o crédito e o dinheiro por isso. Se tem interesse na questão, sugiro dar uma olhada no filme “Mary Shelley”, pois os momentos finais são exatamente discutindo a dificuldade da mulher com os editores, até conversar sobre isso seria um assunto muito bacana.

Outro ponto que é muito bom de perceber é que todas as March tem um talento artístico: Meg (Emma Watson) é uma atriz excelente na opinião de Jo, Amy (Florence Pugh) é uma artista plástica mediana segundo ela mesma, já Beth (Eliza Scanlen) é uma ótima pianista. Mesmo com todos estes talentos de família a única a ganhar dinheiro com seu talento é Jo, apesar de Amy até tentar se profissionalizar. É de Amy talvez um dos melhores diálogos do filme, quando questionada sobre abandonar seu sonho de se tornar uma artista, ela responde: “não sou genial, sou apenas mediana” e depois: “os homens determinam quem são geniais”, e por isso opta pelo casamento, assim como outra de suas irmãs.

Apesar do trunfo da delicadeza em que o filme trata as questões femininas da época, a questão do talento e do casamento, as dificuldades do romance e do matrimônio, o longa tem um problema com linhas temporais. Ele não é linear, vai do presente para o passado várias vezes. Existe uma lógica nas passagens do tempo, mas ficou bastante confuso para quem não está muito acostumado com este tipo de narrativa. Percebi quando minha mãe ficava me perguntando o tempo todo o que estava acontecendo.

O ritmo do filme me lembra muito os filmes de época de mesma temática, como “Orgulho e Preconceito” e “Jane Eyre”. Se está acostumado com este estilo e estética muito similares, suave, lento e fluído, romântico e realista nas doses certas e com um figurino impecável, provavelmente irá gostar de assistir. Greta Gerwing escolheu as referências certas para contar esta história.

Sobre as atuações, com certeza Saoirse brilhou mais uma vez, conseguindo passar uma delicadeza “moleca” e a convicção da sua personagem, em alguns momentos flertando com o pessimismo e a profunda tristeza. Senti Emma Watson muito apagada neste filme, ela não teve grandes momentos a não ser em uma conversa em um baile. Outra notável atuação veio de Florence Pugh, que conseguiu transitar entre a jovem ingênua e temperamental Amy para a Amy insegura, realista e mais madura. Meryl Streep fez o papel da tia das meninas, e mostrou apenas ser uma personagem inflexivelmente conformista de sua época. Tenho que falar um pouco sobre Timothée Chalamet, um dos atores que tem recebido muito destaque em Hollywood nos últimos anos: ele fez um amigo próximo das irmãs e realmente pude entender como ele tem conquistado seu lugar, ele consegue transitar entre os sentimentos de uma forma notável e tornar seu personagem, mesmo que secundário, em um personagem complexo – de encantado a torturado, de torturado a apaixonado e finalmente conformado e amigável. Quem assistir vai compreender.

Antes de finalizar, quero fazer uma recomendação: existe um projeto no YouTube super bacana que cria releituras modernas de obras escritas por mulheres, começou com Orgulho e Preconceito e Mulherzinhas já foi adaptada (conheci a obra pelo canal): o canal se chama Pemberley Digital e a Playlist é The March Family Letters (pena que é só para quem manja de inglês).

Adoráveis Mulheres é um belo filme para se assistir e uma bela demonstração de como adaptar uma obra literária. Suave, belo e inspirador para se apreciar em qualquer sábado à tarde.

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