Desta vez com Spoilers
Poderia ter encerrado com um vídeo de recomendação, mas não seria suficiente para falar de Umbrella Academy. Primeiro que provou que a Netflix consegue fazer mais do que usar DC e Marvel e finalmente tratar de questões polêmicas com super heróis.

Para quem não sabe os jovens super heróis em questão são adotados e se tornam uma grande família/equipe criada para combater o fim do mundo. Os anos se passam, parte da equipe abandonou a vida de heroísmo e outros encaravam o heroísmo de formas diferentes. Heróis disfuncionais e problemáticos que tiveram que encarar todos suas diferenças após a morte do pai e a alguns dias do fim do mundo. A série já foi renovada para a segunda temporada.

Uma das críticas que mais me chamou atenção é que a QUESTÃO FAMÍLIA. Sete crianças que nasceram no mesmo dia são adotadas e vivem como irmãos graças a seus super poderes. Uma grande família, totalmente improvável… porém da forma mais disfuncional possível ordinária. Chocado? Eu também fiquei.

Se pegarmos a mais tradicional das famílias e fazer um twist temos a família Umbrella Academy. Colocando lado a lado personagens e membros de uma família tradicional americana, vemos claramente uma caricatura um do outro.
O pai da família é Sr. Reginald é um cientista milionário que adotou as sete crianças e passa a treiná-las para usarem seus super poderes. Ele era emocionalmente distante apesar de presente o tempo todo na criação das crianças, a ponto que usar apenas números ao invés de nomes para designar as crianças. Colocou para cuidar das crianças um chimpanzé modificado Pogo e Grace a mãe robótica das crianças, responsável pelas relações realmente emocionais e ao mesmo tempo mecânicas e pré programadas. Já temos duas imagens que chama atenção: A mãe perfeita que muito me lembrou aquele filme “Mulheres perfeitas” e o homem provedor da casa que não precisa se preocupar com emoções, já que: “homens não choram”. Me lembrou muito várias leituras que fiz para opor o “ser homem” e “masculinidade” ao “ser mulher” e “feminino” até os anos 50.

Grace, a mãe perfeita 
poster de Mulheres perfeitas
Grace é o retrato de mãe atenciosa e compreensiva, dona de casa perfeita que sempre chama para comer uma guloseima para resolver os problemas e como falei me fez lembrar muito o Mulheres perfeitas (filme muito bom, por sinal). Umbrella faz a maestria de detonar os personagens e fazer a Perfeita Grace ser apenas uma máquina programada para amar seus filhos, obedecer o marido e ser suspeita de assassinar/acobertar a morte de Sir Reginald. Nunca teve uma vida fora de casa, nada fez além de cuidar dos filhos e da mansão apenas ganhou alguns quadros para observar e viver deles, quase como se fossem um sonho perdido e o questionamento quando observava um quadro de uma mulher sorrindo: “será que ela estava realmente feliz?” A mãe perfeita presa a uma vida depressiva.

O pai provedor, o milionário Reginald quis tirar de todos os seus “filhos” a capacidade total de seus poderes. O mestre, pai e comandante da família. Aparentemente tinha tudo sobre controle, não demonstrava comoção até que nos é revelado sua relação com o violino. Reginald sabe porque reuniu as crianças e tinha um objetivo traçado. Frieza, trabalho duro e preocupação emocionalmente distante. Eu me senti lendo de novo os textos sobre masculinidade e virilidade que li para escrever meu TCC em longínquos tempos atrás, mas isso o obriga a renunciar a própria vida sabendo que só assim reuniria os filhos novamente e impediria o fim do mundo, pois seu objetivo falhou. O clássico “e se” entra em questão aqui: E se ele tivesse abdicado um pouco da sua virilidade e contasse para os filhos seus planos e o que sabia, o final seria diferente? Talvez… mas tudo fez dele apenas um pai que causou traumas, criou desconforto entre os irmãos e os fez sair de casa sem querer voltar, fazendo com que a figura mais humana da convivência das crianças seja um Chimpanzé.

Então temos as crianças e seis delas são trabalhadas: Luther, o líder, Diego, o vigilante, Allison, a atriz, Klaus, o viciado, número 5, a eterna criança e Vanya, a “normal”. Adotadas e todas são separadas segundo a sua importância dentro da equipe. Não são bem resolvidos com sua criação e com seus poderes, e todos eles tem algo a mostrar sobre a família.

Luther e Diego são dois que não consigo pensar neles separados. Um é o filho perfeito que aceita todos os comandos do pai, aquele que o pai confia tudo e a todos. Super forte, foi criado como líder de Umbrella Academy, o filho preferido. Luther jamais questionou as ordens e as consequências para ele foram drásticas: seu corpo foi destroçado e teve que morar na lua sem ao menos entender, chegando a questionar a morte natural do pai. Sempre aceitou e nunca questionou. Em oposição temos o ideal de herói, valente e independente número 2. Saiu das asas do pai e foi para o mundo combater o crime como vigilante. Diego se associou a polícia, vivia a sombra para combater o crime e era moralmente correto, até perder alguém próximo. Tinha ressentimentos com seu pai e muito carinho pela mãe que o ajudou com problemas que ele tinha com a fala. Os dois eram perfeitos líderes, perfeitos heróis de formas completamente diferentes. Me lembrou muito a história bíblica de Esaú e Jacó, os gêmeos que geraram preferências entre os pais: Esaú ao pai e Jacó à mãe; infelizmente ambos sentem-se traídos por seus pais protetores. Cada um teve que aceitar imperfeições deles e isso acabou os unindo.

Allison representa o filho bem sucedido, porém artificialmente montado. Aquele filho que os pais fazem acreditar que pode ser o que quiser e que ajudam por jeitos não legítimos e não merecidos. Allison só alcançou sua posição devido seu poder e isso a deixava claramente infeliz. O que não dependia do seu poder acabava saindo do seu controle: não podia ver a filha, não conseguiu manter seu casamento e era literalmente vítima do seu próprio poder. Não tinha como mudar seu destino, a família acabou sendo a única coisa legítima de sua vida e isso a fez naturalmente se aproximar de Vanya sem segundas intenções, mas se torna super protetora e controladora e causa sua ruína.

Klaus é talvez o que causa mais simpatia. Ele representa o filho que sobre a opressão do pai para atingir seu máximo potencial e acaba sucumbindo ao vício das drogas. Acha na vida de bebedeira e drogas a saída para se ver livre de seu poder e automaticamente do controle do pai. É o primeiro a buscar pelo testamento e a se meter em confusão. Sua redenção só acontece ao conhecer uma figura amorosa de Dave que o trata como alguém merecedor de amor e carinho, coisas que nunca sentiu em toda a sua vida. Depois disso tornasse membro vital da equipe e talvez um dos personagens que tem maior controle de suas habilidades e da sua própria vida.

Número 5 é para mim o mais difícil de analisar. Ele é o filho que questionou o pai primeiro e acabou sendo o fio condutor da história. No final ele era tão paranoico o pai, só que de um jeito próprio. Já parou para pensar que por mais que questione seu pai, você acaba parecendo com ele, só que de um jeito seu? O número 5 é no final uma versão alternativa do pai em vários aspectos Doris, sua namorada, era sem vida como Grace, ambos fizeram o que fizeram para evitar o fim do mundo e sabe que só pode impedir se for amparado pela sua família, mas tenta fazer tudo sozinho. Era um espelho distorcido do pai.

Vanya é a motivação deste texto, nunca vi a Ellen Paige tão confortável em um papel e tão feliz ao interpretar um personagem. Qual a diferença desta personagem e as outras? A resposta é: identificação. A personagem é rejeitada por não ser especial como os outros. Ela é a não harmônica da família, aquela que não é a regra. Vanya é parte da família, mas não pertence a lógica da família. É o que o homossexual é para os familiares e é por isso que Ellen estava tão confortável, por que ela provavelmente se sentiu assim. É o membro que causa desconforto a família tradicional, é aceita, mas é tratada como diferente. No final Vanya era muito mais poderosa que todos juntos e uma legítima membro do Umbrella Academy, merecedora de seu lugar e torna todo o preconceito próprio (sim, ela se sentia e agia como rejeitada) e dos irmãos apenas comprova a reprodução de algo superficial e desnecessário.
The Umbrella Academy é um tratado dos problemas familiares contados na forma de heróis e fim do mundo. Já descobriu quem você? Eu sou o Número 5
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